Christiane Monnerat e a Escrita criativa no inverno da Úmbria

Úmbria no Inverno
Primeira Parada: Orvieto
Do aeroporto de Roma até Orvieto, na região da Úmbria, são cerca de uma hora e meia de carro por uma autoestrada impecável. A paisagem muda aos poucos até surgir, no alto de uma formação de rocha vulcânica, aquela cidade que parece literalmente suspensa no ar. Orvieto se situa no coração da “bota”, entre Roma e Florença. É uma posição estratégica que a transformou, durante séculos, em um refúgio importante para papas e nobres.
A previsão do tempo era bastante pessimista: frio intenso, chuva, neblina e céu fechado, todavia a Itália é detentora dessas ironias delicadas e a medida em que passei a me aproximar da cidade, as nuvens deram lugar a um sol lindíssimo iluminando as colinas e as muralhas antigas, criando aquele contraste típico do cenário invernal com luz dourada e ar gelado.
Quem dirige pela Itália precisa ficar atento a uma sigla que pode transformar qualquer viagem tranquila em dor de cabeça: ZTL, abreviação de Zona a Traffico Limitato. São áreas de circulação restrita dentro das cidades históricas. Ingressar com o carro sem autorização significa, quase sempre, multa enviada meses depois para o Brasil. Eu confesso que fico sempre em estado de alerta diante dessas placas, observando cada sinalização com a atenção de quem atravessa um campo minado automobilístico.
Outra regra valiosa que aprendi nas andanças pela Úmbria: Se um hotel italiano contém em seu nome palavras como palazzo, castello ou algo parecido, prepare-se. Trata-se de local com uma subida considerável, bastante íngreme, estradas estreitas e um cenário deslumbrante que tenta a todo custo desviar seu foco, distrair sua atenção e provavelmente te colocar em perigo. No inverno, a situação piora em demasia com o clima gélido acompanhado de neblinas espessas.
Foi exatamente o caso do hotel onde me hospedei, o extraordinário Palazzo Petrvs, instalado em um edifício histórico no centro de Orvieto. O esforço da subida, no entanto, é amplamente recompensado. O hotel é elegante, intimista, silencioso e absolutamente encantador.
Orvieto é uma cidade relativamente grande para os padrões das cidades históricas italianas, cheia de ruas sinuosas, pequenas praças e passagens onde, às vezes, o próprio GPS simplesmente perde o sinal. Caminhar ali é um exercício de descoberta constante.
E então, no meio desse labirinto de pedra, surge algo que desafia qualquer descrição: o magnífico Duomo di Orvieto. A fachada dourada, coberta de mosaicos e esculturas, é simplesmente arrebatadora. O impacto visual é imediato, mesmo para alguém como eu, já habituada ao esplendor das igrejas italianas.
O inverno nessa região costuma trazer bastante chuva, mas também tem uma vantagem: menos turistas, mais silêncio e uma atmosfera quase cinematográfica nas ruas antigas.
E como toda cidade italiana de respeito, Orvieto também reserva experiências memoráveis à mesa, algumas das quais destaco a seguir:

O primeiro destaque é o Restaurante Coro, localizado dentro do extraordinário Palazzo Petrvs (Via del Duomo, 23, Orvieto), onde me hospedei por seis dias. Foi ali que sozinha e, portanto, muito bem acompanhada, que rompi o Ano-Novo em um cenário absolutamente cinematográfico. A experiência começou de forma um pouco intrigante. Fui conduzida até minha mesa e o maître disse algo como: “Sua mesa fica ao lado da sacristia”. Confesso que fiquei um pouco perplexa. Sacristia? Em um restaurante? Só então percebi que o restaurante funciona dentro de uma antiga igreja magnificamente restaurada. Aquilo que antes era espaço litúrgico tornou-se um salão elegante, iluminado suavemente e com músicos tocando harpa ao fundo. O menu era fixo, cuidadosa e magnificamente elaborado. Logo na entrada chegou um prato que era literalmente, pelo menos em sua forma, uma hóstia. Cada etapa da orgia degustativa era delicada e simbólica, estrategicamente pensada para dialogar com o ambiente histórico. O resultado é um restaurante sofisticado, muito bem avaliado e, sem dúvida, uma das experiências gastronômicas mais marcantes da cidade.
Outro endereço que merece destaque é o Bistrô Miranda (Via Giuseppe Garbaldi, 10), também localizado no centro histórico de Orvieto. Ali provei um prato que ficou gravado na memória: um delicado plin (pequena massa recheada) servido com cacio e pepe (queijo e pimenta) e trufas negras. Simples e absolutamente delicioso.
Mas a experiência marcante que merece ser contada pelo aspecto quase antropológico da culinária local é o menu do Restaurante La Palomba (Via Cipriano Manente, 16), famoso por seus pratos à base de pombos, tradição antiga da região. Havia diversas variações: de pombo assado até preparações mais ousadas como tripa de pombo regada com molho da região. Confesso que examinei o menu com grande respeito pela tradição, mas igualmente mantive a devida distância regulamentar, também com certa cautela gastronômica, razão pela qual findei por declinar educadamente das inusitadas opções.
Em uma antiga gruta escavada na rocha, o Restaurante Le Grotte del Funaro (Via Ripa Serancia, 41) oferece uma proposta diferente e muito interessante, com pratos regionais preparados em ambiente rústico e acolhedor.

No meio de um daqueles temporais repentinos que caiam sobre Orvieto, sem qualquer aviso, procurei refúgio no primeiro lugar que encontrei aberto. Era uma pequena enoteca com nuances de delicatessen ou vice-versa, vale dizer, minúsculos espaços que vendem vinhos, embutidos e outras tentações regionais. E foi graças à tormenta que, despretensiosamente, ingressei no Il Negozietto (Via dei Magoni, 16), imaginando apenas esperar a chuva passar. Mas o abrigo rapidamente se transformou em descoberta. Entre prateleiras de vinhos e mesas simples de madeira, surgiu uma cerveja artesanal local surpreendentemente boa, algo que eu não esperava encontrar ali, no coração de uma cidade mais associada ao vinho do que ao malte. Ledo engano. Embora a Úmbria não seja tradicionalmente famosa pela cerveja, como a Baviera ou a Bélgica, nas últimas décadas a cerveja artesanal ganhou novas proporções através de uma cena bastante interessante de microcervejarias tais cono a Mastri Birrai Umbri, Birra Perugiam, Birra dell’Eremo
Em seguida entrou em cena a variada tábua de frios. Salames curados, presuntos delicados, embutidos perfumados e, para minha surpresa absoluta, cinghiale fatiado (javali preparado e servido em fatias finíssimas) com aquele sabor levemente selvagem que faz parte da identidade gastronômica da Úmbria. Lá fora, o temporal que continuava castigando as ruas medievais deixou de ser um problema e passou a ser apenas um detalhe.
Por fim, indico sem pestanejar a pizzaria/delicatessen Test/Ardo, um pequeno restaurante cuja tradução literal “teimoso” parece traduzir bem a personalidade da cozinha umbra (Corso Cavour, 101). O pedido chegou em forma de uma tábua generosa de embutidos, dessas que imediatamente fazem qualquer tentativa de elegância dietética desaparecer. Prosciutto delicado, salames robustos, mortadelas macias e perfumadas se espalhavam pela madeira como um pequeno mapa da charcutaria italiana. Ao lado, pimentões assados traziam aquela doçura levemente defumada que parece ter sido inventada apenas para acompanhar vinho branco ou com a birra alla spina (chopp feito da cerveja artesanal local). Não era exatamente uma refeição sofisticada e talvez esteja aí o segredo. Em Orvieto, muitas vezes o prazer gastronômico não está em pratos elaborados, mas na honestidade de ingredientes bem-feitos e frescos. O Test/Ardo, fiel ao próprio nome, parece insistir nessa fórmula simples. E ainda bem que insiste.

Como nem tudo são flores, narro uma das minhas mais inusitadas odisséias: Era noite de réveillon e eu estava viajando com duas malas enormes, uma vez que o inverno italiano exige um verdadeiro arsenal de roupas: casacos, botas, cachecóis, luvas… enfim, um pequeno guarda-roupa portátil.
A cidade histórica tem zona de ZTL, razão pela qual deixei o carro estacionado fora das muralhas e para facilitar a vida, subi para o hotel levando apenas uma das malas, arrebatada de forma aleatória ante a proximidade da tormenta que se avizinhava. Tudo perfeito… até o momento de me arrumar para o jantar de réveillon quando me dei conta de que a mala sob minha posse não continha o estojo de maquiagem. A necessaire estava na outra mala, tranquilamente repousando dentro do carro estacionado fora da ZTL, a uma distância suficientemente grande para desestimular qualquer tentativa de resgate em plena noite festiva. Restava improvisar. Por sorte, havia uma farmácia na rua do hotel. Entrei e comprei alguns poucos itens de emergência, o suficiente para salvar minimamente a situação.
O réveillon aconteceu, o jantar foi ótimo, a noite foi linda, embora a conta dessa improvisação tenha chegado dois dias depois: uma espinha monumental emergiu das profundezas do “umbral umbro” e se instalou no canto superior esquerdo da minha boca, provavelmente uma vingança dermatológica pela mistura de produtos aleatoriamente adquiridos na farmácia de última hora.
Um dos passeios mais impressionantes de Orvieto é o Pozzo di San Patrizio, uma obra de engenharia do século XVI construída para garantir o abastecimento de água da cidade em tempos de cerco. O poço tem cerca de 60 metros de profundidade e é famoso por suas duas escadarias helicoidais que nunca se cruzam, permitindo que pessoas e animais descessem por um lado e subissem pelo outro. Eu recomendo especialmente fazer a visita guiada, porque ela ajuda a entender melhor a história da construção, o contexto político da época e as soluções engenhosas utilizadas na obra. Os bilhetes costumam ser vendidos em frente ao Duomo, no centro histórico, e dali muitos visitantes seguem a pé até o local. Vale muito a pena.
Outro ponto imperdível em Orvieto é a Torre del Moro, localizada no coração do centro histórico. Com cerca de 47 metros de altura, ela oferece uma das vistas panorâmicas mais bonitas da cidade e da paisagem da Úmbria, com colinas que parecem se estender infinitamente no horizonte. A subida pode ser feita por escadas ou elevador até determinado ponto, mas o esforço é plenamente recompensado.
San Casciano dei Bagni
O Paraíso das Águas Termais

Depois de alguns dias em Orvieto, segui viagem por cerca de 45 minutos até San Casciano dei Bagni, uma pequena localidade no sul da Toscana, já muito próxima da fronteira com a Úmbria.
A estrada atravessa colinas suaves e silenciosas até chegar a esse vilarejo que parece ter sido feito para o descanso absoluto. Ali, o grande protagonista da experiência é um hotel: o extraordinário Fonteverde Lifestyle & Thermal Retreat (Località Terme, 1, 53040 San Casciano dei Bagni).
Neste caso, a viagem praticamente gira em torno do próprio hotel. E isso não é nenhum problema, pelo contrário. O complexo é construído sobre antigas termas e oferece uma estrutura impressionante. São mais de dez piscinas termais, todas alimentadas por águas naturalmente quentes que brotam do subsolo. A origem dessas águas está ligada a um antigo sistema vulcânico da região, um vulcão extinto, cuja atividade geotérmica continua aquecendo as fontes minerais até hoje.
O resultado é uma experiência única: mergulhar em piscinas externas com água quente enquanto o ar ao redor está gelado. Na semana da minha estadia, inclusive, chegou a nevar intensamente. A cena parecia saída de um filme: vapor subindo das piscinas, colinas cobertas de branco e um silêncio absoluto ao redor.
Foi no SPA que vi pela primeira vez o a denominada doccia emozionale. Aperta-se um botão e ocorre uma espécie de ritual sensorial: jatos de água de diversas intensidades se alternam com luzes coloridas mescladas com aromas discretos que se espalham pelo ambiente. Em alguns momentos, uma espécie de névoa entra em cena, criando uma sensação revigorante de despertar os sentidos. Talvez ainda sob o efeito da doccia emozionale do spa, acabei comprando na lojinha do hotel um perfume que parecia recriar exatamente aquela sensação: Yerbamate, da casa florentina Lorenzo Villoresi. Verde, fresco, quase herbal, como se alguém tivesse engarrafado a mistura de vapor, folhas e água fria que cai sobre você naquele ritual termal. O perfume custou cerca de €120, o que naquele momento pareceu perfeitamente razoável. Afinal, se existe alguma chance de levar para casa a lembrança olfativa daquele céu em formato de spa, ela provavelmente vem dentro de um pequeno frasco elegante como aquele.
Dentro do hotel há praticamente tudo: restaurantes, spa, boutiques e áreas de descanso. É um daqueles lugares em que se entra e, por alguns dias, o mundo exterior deixa de existir.

Há também um bar na parte superior do hotel com uma vista belíssima da paisagem. Mas uma descoberta curiosa foi o pequeno café que serve diretamente as piscinas termais. Ali os preços são surpreendentemente mais amigáveis, principalmente com relação ao espumante, cuja garrafa custava quase a metade do valor cobrado no bar principal. Um detalhe que, convenhamos, faz toda diferença quando se está relaxando em águas termais.
Fora do hotel, praticamente não há para onde ir a pé. Existe apenas uma pequena igreja nas proximidades e algumas ruas tranquilas da vila. Na verdade, mesmo que houvesse mais opções, a forte nevasca naquele período provavelmente impediria qualquer tentativa de passeio. Mas a verdade é que isso pouco importa. Em San Casciano dei Bagni, o prazer está justamente em desacelerar e aproveitar o hotel.
O jantar acontece no elegante Ristorante Ferdinando I, onde a atmosfera é tão serena quanto o restante do hotel. As grandes janelas enquadram a paisagem toscana como se fosse uma pintura renascentista, enquanto a iluminação suave e o serviço impecável criam aquele clima clássico de hotel termal europeu. A cozinha segue a mesma filosofia da região: ingredientes locais, sabores muito bem definidos e pratos que equilibram refinamento e simplicidade. Massas delicadas, carnes perfeitamente preparadas e vinhos toscanos que parecem feitos sob medida para aquele cenário.

Cortona – a Cidade que Ficou Famosa no Cinema
Em seguida, cheguei à cidade de Cortona, praticamente na fronteira da Úmbria e que ficou mundialmente famosa por causa do filme Under the Tuscan Sun (Sob o Sol da Toscana). Fiquei hospedada na La Locanda agli Amici (Via Torreone, 6), uma pequena hospedaria, quase uma pensão, muito acolhedora, instalada em uma casa antiga.

A chegada foi uma pequena aventura. Estava chovendo, o GPS resolveu parar de funcionar, algo que curiosamente acontece comigo com uma certa frequência e eu errei a subida. A estrada é bastante sinuosa até alcançar o centro histórico. Quando finalmente cheguei, tive uma sensação curiosa: o lugar era ótimo, muito bem cuidado, mas não havia ninguém no hotel. Absolutamente ninguém em lugar nenhum. A recepção parecia abandonada. Tentei contacto telefônico com um número constante de um papel preso na portaria. Uma senhora muito simpática que depois descobri ser a proprietária do local me informou que o check-in era a partir das 15 horas. Resumindo: Ninguém em lugar nenhum, ruas vazias, restaurantes e lojas fechadas. E claro, aquela chuva incessante. Resolvi descer a pé até o centro histórico de Cortona, sem saber se tal façanha era possível. Cerca de 40 minutos depois, lá estava eu diante da praça principal e dividida entre ingressar no Duomo ou refazer o caminho de volta antes que escurecesse. Foi ali que eu me dei conta de algo que ainda não tinha percebido no início da viagem: a Europa estava em férias coletivas. E aquele silêncio nas cidades, que no começo parece estranho, acaba revelando uma outra face da Itália: uma Itália quase secreta, onde as paisagens continuam intactas, mas as multidões simplesmente desaparecem.
Excelente dica de restaurante no centro histórico: Trattoria Toscana (Via Dardano, 12) conhecida pela excepcional cozinha com pratos típicos. O pici com ragu toscano é fantástico. O prato principal é a famosa bisteca alla fiorentina.

Perugia
Vento, Chocolate e Cidades Subterrâneas
Segui viagem para a Perugia, capital da Úmbria, uma cidade medieval lindíssima construída no alto de uma colina e fiquei hospedada no Sina Brufani Hotel (Piazza Italia, 12).
O hotel é espetacular, verdadeiro clássico italiano, muito elegante, com um spa maravilhoso e uma piscina impressionante, instalada sob abóbadas medievais e com piso de vidro revelando ruínas etruscas. Todavia, aonde eu chegava, os lugares estavam fechados ou prestes a fechar. No próprio hotel me avisaram que o spa poderia fechar porque havia pouquíssimos hóspedes. Acabei ficando apreensiva. No final, parece que chegaram mais pessoas e o spa permaneceu aberto, mas até isso virou uma pequena via-crúcis logística.

Apesar disso, Perugia é uma cidade muito bonita, embora tenha uma característica curiosa e marcante: venta demais. O vento constante torna um pouco desconfortável caminhar muito tempo nas ruas. Talvez por isso existam tantos percursos subterrâneos na cidade, como os da impressionante Rocca Paolina, um sistema de passagens construído dentro das estruturas antigas da cidade.
As lojas estavam abertas, embora quase vazias e alguns restaurantes também. Recomendo fortemente o La Taverna (Via delle Streghe,8), simplesmente maravilhoso. Outro altamente recomendado é o Collins’ Restaurant, dentro do próprio Hotel Sina Brufani.
O Il Giurista (Via Bartolo, 30) se situa no fim de uma escadaria, quase em um espaço subterrâneo, atrás da Catedral de Perugia e possui a proposta da linha da culinária tradicional. Comi o famoso umbricelli com ragu de javali.

Outra peculiaridade da Perugia são as lojas de trufas, muito presentes por toda parte na Úmbria. Eu até tentei organizar aquele passeio tradicional em que um cachorro treinado procura trufas na floresta, mas não consegui. Pelo que me disseram, até os cachorros estavam de férias.
A cidade também é conhecida por ser a terra do famoso chocolate Baci Perugina, aquelas trufas de chocolate com avelã que vêm com pequenas mensagens românticas dentro da embalagem.
Outro ponto interessante é a cappella di San Severo onde há um afresco (Trinità e Santi) pintado por Raphael e Pietro Perugino
Perugia acabou sendo uma parada curiosa: uma cidade belíssima, histórica, cheia de arte e gastronomia, mas envolta num vento constante e num silêncio que reforçava cada vez mais a sensação de que a Úmbria inteira estava de férias naquele inverno.
Assis
Silêncio, Espiritualidade e a Cidade de São Francisco

Depois segui para Assisi ou Assis, uma das cidades mais espirituais e impressionantes da Itália, conhecida no mundo inteiro por ser a terra de São Francisco de Assis. Fiquei hospedada no extraordinário Nun Assisi Relais & Spa Museum (Via Eremo delle Carceri, 1A). Instalado em um antigo mosteiro, ele tem um spa maravilhoso construído sobre ruínas romanas, além de restaurantes excelentes.
Eu inicialmente ficaria apenas quatro dias, mas um imprevisto mudou completamente os planos. O hotel onde eu ficaria em seguida, em Montefalco, chamado Villa Bontadosi Hotel & Spa, me enviou uma mensagem cancelando a reserva. Disseram que o hotel estava praticamente vazio e que não abriria naquele período. Assim, acabei permanecendo quase uma semana em Assis.

Mesmo no Nun Assisi era evidente como a região estava vazia naquela época do ano. No dia em que fui embora, percebi algo curioso: eu era a última hóspede do hotel. No jantar da noite anterior, os restaurantes praticamente se despediram de mim.
Assis, no entanto, é uma cidade absolutamente extraordinária. Diferente de outros lugares por onde passei, a atmosfera era agitada: restaurantes funcionando, lojas abertas e uma atmosfera viva, ainda que tranquila.
A cidade é construída toda em pedra clara e parece suspensa sobre o vale da Úmbria. Caminhar por suas ruas estreitas dá a sensação de estar dentro de um cenário medieval intacto.

O ponto alto é, naturalmente, a impressionante Basilica of Saint Francis of Assisi, um dos complexos religiosos mais importantes da Europa. A igreja guarda um conjunto extraordinário de afrescos medievais e renascentistas, incluindo obras associadas ao círculo de Giotto. Infelizmente, não é permitido filmar ou fotografar dentro da basílica, o que torna a experiência ainda mais especial: é preciso simplesmente parar e contemplar.
Na parte gastronômica, gostei muito da Trattoria Degli Umbri (Piazza del Comune, 40) que serve a cozinha típica da região. Ela fica na Piazza del Comune, uma das praças centrais da cidade, e oferece pratos tradicionais da Úmbria muito bem executados.

Outro lugar de que gostei bastante foi o Il Tempio di Minerva (Piazza del Comune, 06081), restaurante muito agradável, com pizzas excelentes.
Infelizmente, outros restaurantes com vistas lindíssimas estavam fechados. Uma curiosidade: A cidade foi construída no alto do Monte Subasio e por isso, muitos terraços parecem balcões sobre o vale.
Para quem quiser comprar alguma lembrança especial, encontrei uma loja encantadora chamada Arte Legno (Via Arnaldo Fortini, 20), especializada em peças de madeira feitas à mão. São objetos muito autênticos, artesanato verdadeiro da região. Ali comprei um quadro com uma pintura de São Francisco de Assis que hoje ornamenta a minha casa.

Assis acabou sendo um dos pontos mais marcantes da viagem, não apenas pela beleza da cidade, mas pela estranha sensação de tranquilidade absoluta que dominava toda a região naquele inverno. Uma Itália silenciosa, contemplativa e profundamente espiritual.
Um detalhe curioso que me chamou muito a atenção durante os dias em Assis foi um pequeno salão de cabeleireiro chamado Rosita & Simonetta (Via San Rufino, 27), simplesmente o nome das duas sócias que me atenderam na ocasião. Vivi uma experiência inédita: Foi a única vez na vida que tive três secadores apontados para a minha cabeça ao mesmo tempo, um verdadeiro vendaval capilar.
Enquanto muitas lojas e restaurantes da cidade funcionavam em ritmo reduzido naquele inverno ou estavam completamente fechados, o salão Rosita & Simonetta permanecia aberto praticamente o dia inteiro.
Esses pequenos salões de bairro possuem algo muito característico da vida italiana. Mais do que um simples cabeleireiro, são quase pontos de encontro sociais, lugares onde se conversa, se troca notícias e se mantém viva a rotina da cidade.
Bate-Volta
Montefalco, Bevagna, Spello

A partir de Assis, é possível organizar um bate-volta por alguns dos borgos mais encantadores da Úmbria. Montefalco, Bevagna e Spello ficam a distâncias curtas, entre cerca de 20 e 40 minutos de carro, o que torna o percurso leve e extremamente prazeroso, quase um convite a percorrer a paisagem sem pressa. Montefalco, conhecida como a Varanda da Úmbria, oferece vistas amplas das colinas e vinhedos. Na saída, fui brindada por um arco-íris absolutamente maravilhoso, daqueles que parecem surgir apenas para confirmar o surrealismo paisagístico.
A seu turno, Bevagna preserva uma atmosfera medieval autêntica, com suas praças silenciosas e bem conservadas. Aconselho uma parada para almoço no famoso Restaurante Al Monastero (Corso Giacomo Matteoti, 13, Bevagna).
Spello, talvez o mais delicado dos três, encanta com suas ruas floridas, varandas cuidadosamente decoradas e uma estética quase cenográfica. Foi justamente em Spello que encontrei um daqueles lugares que não se anunciam, mas se revelam: o Bar Giardino Bonci (Via Giulia, 1, Spello). À primeira vista, parece um café simples, quase discreto. Nos fundos, porém, abre-se um jardim amplo com vista para o vale, onde mesas despretensiosas se espalham sob árvores altas.
É um roteiro breve, mas de grande impacto, capaz de revelar em poucas horas a essência mais íntima e pitoresca da região.
San Gemini
O Silêncio Absoluto da Úmbria

O último trecho da viagem foi em San Gemini e não San Gimignano, na Toscana, como muita gente confunde. San Gemini é um pequeno borgo medieval da Úmbria, situado em uma colina acima do vale. Ali fiquei hospedada no Palazzo Vecchio San Gemini, um antigo palácio transformado em hotel.
Foi nesse momento da viagem que realmente percebi que quase tudo estava fechado. Se nas outras cidades já havia um clima de pausa de inverno, em San Gemini a sensação era ainda mais intensa. A cidade parecia praticamente deserta.
A chegada também não é simples. Como em muitos borgos italianos, não é possível entrar de carro no centro histórico. É preciso estacionar fora das muralhas e subir caminhando por ruas de pedra bastante inclinadas. A cidade fica bem no alto e tem aquela atmosfera de vila suspensa no tempo.

Mesmo assim, encontrei alguns lugares excelentes para comer. Um deles foi a Taverna del Torchio (Piazza Giuseppe Garibaldi, 2), onde tive um jantar excelente. Curiosamente, aquele foi praticamente o último dia de funcionamento do restaurante antes de fechar por um período.
Outro restaurante muito bom foi o Il Giardino Vino e Cucina (Via Tuderte, 5). É um restaurante e igualmente uma pequena bottega, muito agradável. Todavia, o lugar de que mais gostei foi o La Pecora Nera (Piazza San Francesco, 2). Come-se muito bem nesse ambiente acolhedor e autêntico. E houve ainda uma descoberta curiosa: o Vanis, onde provei um prato típico chamado Pinsa. À primeira vista ela lembra uma pizza, mas é diferente, pois a massa é mais leve e a forma geralmente é maior e mais alongada. Foi uma experiência deliciosa.

Ainda assim, a sensação predominante era de silêncio absoluto. Uma noite me chamou particularmente a atenção. A pequena praça do borgo estava toda iluminada, perfeitamente preparada para receber pessoas, mas não havia ninguém. Em determinado momento pensei: alguém precisa estar pagando essa conta de luz e certamente não sou eu. Aquela iluminação foi quase o primeiro indício de que ainda havia vida humana por ali. No fim das contas, essa quietude acabou sendo perfeita. Passei quatro dias em San Gemini descansando antes de voltar, em uma espécie de imersão involuntária no silêncio da Úmbria de inverno. O Palazzo Vecchio é um hotel muito bonito, com uma vista extraordinária do vale. Mas o que mais marcou essa última etapa da viagem foi justamente essa sensação rara: uma cidade medieval inteira quase só para mim.
Soriano nel Cimino
Quarenta Minutos Depois, Ainda Mais Silêncio


Depois segui para Soriano nel Cimino ou San Soriano del Cimino. A viagem entre os dois lugares leva cerca de 40 minutos, atravessando paisagens muito bonitas. Ali fiquei hospedada no Palazzo Catalani Resort, um hotel instalado também em um antigo palácio, com vista belíssima para a região.
E a sensação de recolhimento era ainda mais intensa: pouquíssimo movimento nas ruas, muitas portas fechadas e aquela atmosfera de inverno em que as pessoas parecem desaparecer mais cedo para dentro de casa. Ainda assim, o borgo é muito bonito, com ruas estreitas, pedra antiga e uma vista impressionante das montanhas da região.
Restaurante Ai Tre Scalini(Piazza Vittorio Emanuele, II)
Há um lugar ali perto de Soriano nel Cimino que parece quase uma invenção, a Faggeta del Monte Cimino. Uma floresta de faias centenárias, alta, silenciosa, com aquela luz filtrada que transforma qualquer caminhada em algo mais contemplativo do que turístico.

Fica a cerca de dez minutos de carro do centro histórico, onde eu estava hospedada e, a partir dali o ideal é seguir a pé. Um passeio simples, mas profundamente bonito, mesmo no frio intenso que encontrei por lá.
E então vem o detalhe quase cinematográfico: no coração da floresta está o Restaurante Baita La Faggeta todo em madeira, perfeitamente integrado à paisagem, como se sempre tivesse pertencido àquele lugar. Mas a Itália tem dessas ironias elegantes. Em um cenário de silêncio absoluto, no meio do inverno, o restaurante estava… tomado por duas cerimônias de casamento. Duas. No meio da floresta, entre árvores centenárias e um frio quase solene. Resultado: não havia a menor chance de me receberem. Fica a dica: Quase uma cláusula contratual: reservar é imprescindível.
O bar intimista La Luigina (Via Vittorio Emanuele III, 14) tem uma vista espetacular e me surpreendeu pois estava lotado todos os dias.
Última parada antes do Brasil
Relaxando em Fiumicino (Região do Lazio)
Na véspera de voltar para o Brasil, fiz uma última parada perto do aeroporto de Roma, em Fiumicino. Apesar de ser muito próximo do aeroporto Leonardo da Vinci–Fiumicino Airport, o lugar surpreende porque parece completamente afastado do movimento.

Me hospedei no QC Termeroma Spa & Resort, que fica a poucos minutos do aeroporto, mas cercado por árvores e jardins. É curioso: ao mesmo tempo em que se está praticamente ao lado das autoestradas e do aeroporto, a sensação é de estar em um refúgio tranquilo.
O hotel tem um spa maravilhoso, com várias piscinas e águas termais, perfeito para relaxar depois de uma viagem longa e antes de enfrentar o voo de volta.
Achei que valeu muito a pena ficar ali na última noite. O sistema de refeições, pelo menos no almoço, funciona quase como um self-service bem-organizado, com várias opções disponíveis.
Confesso que tinha lido alguns reviews não muito positivos, mas a experiência acabou me surpreendendo. O staff era extremamente simpático e sociável, o que faz muita diferença.
Depois de dias percorrendo estradas, cidades medievais e vilarejos silenciosos da Úmbria e da Toscana, terminar a viagem mergulhada em piscinas termais, em meio às árvores, antes do voo de volta para o Brasil, foi uma forma perfeita de encerrar a jornada.
Por fim, há algo de particularmente revelador em percorrer a Itália e, de modo muito especial, a Úmbria´: dominando o idioma. Compreender sem esforço o que se diz a sua volta, pedir um café com naturalidade, captar a sutileza de uma conversa entre locais ou até mesmo decifrar um comentário feito em tom baixo numa tratoria, tudo isso cria uma sensação de proximidade difícil de explicar. As cidades, menos apressadas que as grandes capitais, convidam ao detalhe e é justamente no detalhe que o idioma revela sua força. Entender uma expressão, uma brincadeira, um modo de dizer, transforma a experiência: o viajante deixa de ser espectador e passa a integrar a cena. Indico fortemente a Piccola Università Italiana, cuja sede em Tropea me proporcionou não apenas o estudo da língua, mas uma vivência autêntica, marcada pelo convívio próximo com professores que transformam o ensino em uma verdadeira ponte cultural. A escola oferece cursos ao longo de todo o ano, tanto online quanto presenciais, mantendo também uma sede em Trieste.
Falar italiano, afinal, não é apenas compreender palavras, mas atravessar uma fronteira invisível. É participar de conversas, reconhecer nuances, perceber o que não está dito de forma explícita. É permitir que a viagem deixe de ser um percurso externo e se torne uma experiência de pertencimento.
Saiba mais: https://www.piccolauniversitaitaliana.it/
Por Christiane Monnerat
Créditos fotos: Leonardo Passero



