Roupa usada deixa de ser nicho e disputa espaço com a moda nova
Pesquisas recentes mostram que economia e variedade ampliaram a revenda, mas o ganho ambiental depende de as peças usadas substituírem novas compras.
A roupa de segunda mão deixou de ocupar apenas brechós de bairro e feiras ocasionais. Em pesquisa publicada pela Bain no início de julho, 42% dos consumidores dos Estados Unidos disseram ter comprado roupas ou acessórios usados ao menos uma vez no último ano. A participação chegou a 48% no Reino Unido, 45% na França e 37% na Alemanha.
Os percentuais não descrevem o Brasil, e a página pública da consultoria não informa a amostra completa. Ainda assim, ajudam a dimensionar uma mudança no varejo internacional: comprar usado se tornou uma escolha acessível a públicos de diferentes rendas e idades. O avanço, porém, abre uma pergunta que o crescimento das plataformas não responde sozinho. A revenda está reduzindo a procura por roupas novas ou apenas criando mais uma oportunidade de consumo?
Preço e variedade levam a revenda ao cotidiano
Economizar aparece como o principal impulso. Três em cada quatro compradores ouvidos pela Bain nos Estados Unidos e na Europa colocaram a poupança entre as três principais motivações. Para 68%, a diferença percebida em relação a um item novo ficou entre 30% e 70%. São estimativas dos próprios entrevistados, não uma auditoria de preços, mas mostram como o usado passou a disputar a mesma conta do vestuário novo.
Dados de transações de clientes do Bank of America reforçam esse movimento. Em março de 2026, o número de compras de moda usada por domicílio cresceu 22% ante o mesmo mês do ano anterior. A quantidade de transações avançou nove vezes mais rápido do que o gasto, enquanto o valor médio de cada compra vinha caindo em todas as faixas de renda.
O recorte inclui plataformas comerciais identificadas pelo banco e exclui brechós ligados a doações. Portanto, não representa o mercado completo nem a população dos Estados Unidos. Ele sugere, mesmo assim, que a expansão ocorre pela repetição de compras menores, e não apenas por peças raras de alto valor.
Plataformas transformam garimpo em busca
O canal muda de um mercado para outro. Entre os compradores de usados pesquisados pela Bain, 78% nos Estados Unidos recorreram a lojas físicas, enquanto 46% usaram plataformas digitais. Na Europa, a ordem se inverteu: 72% compraram on-line e 45% em estabelecimentos. Como uma pessoa pode usar mais de um canal, os percentuais não formam uma divisão exclusiva.
Essa passagem do garimpo para a busca depende de descrição. No varejo de produtos novos, uma categoria como calça jeans masculina costuma ser organizada por tamanho, modelagem, lavagem e comprimento. Na revenda, cada anúncio representa uma unidade com histórico próprio. Medidas, estado de conservação e imagens precisam compensar a ausência de estoque padronizado.
A tecnologia ampliou a capacidade de localizar peças específicas, comparar preços e colocar um item à venda sem abrir uma loja. Também levou ao mercado de usados mecanismos familiares do comércio eletrônico, como recomendação personalizada, notificação e atualização constante de catálogo. O que antes exigia percorrer araras pode começar por uma pesquisa precisa no celular.
Vender o armário também virou comportamento
O crescimento não ocorre apenas entre compradores. No universo do Bank of America, o número de clientes que venderam roupas usadas aumentou 16% em março na comparação anual. A geração Z respondeu por 41% dos vendedores identificados no acumulado de 2026.
Isso não significa que a maioria tenha transformado a revenda em profissão. Cerca de 73% venderam apenas uma vez por trimestre ou uma vez por mês no primeiro trimestre. Para esse grupo, a atividade se parece mais com uma limpeza periódica do armário e uma fonte de renda complementar.
A facilidade de revender altera a percepção de valor de uma peça. A conta deixa de terminar no momento da compra e passa a incluir uma possível recuperação futura. Para o varejo, essa lógica cria concorrência e oportunidade ao mesmo tempo: produtos já existentes voltam à disputa pelo orçamento, enquanto plataformas e marcas tentam participar das transações seguintes.
Usado não substitui automaticamente o novo
O benefício ambiental depende do que a compra usada evita. Um estudo publicado na revista Scientific Reports analisou respostas de 1.009 consumidores de moda dos Estados Unidos e encontrou correlação positiva de 0,58 entre gastos com roupas novas e usadas. Quem comprava mais em um mercado tendia a gastar mais no outro.
Os autores interpretam o resultado como sinal de que a revenda pode complementar, em vez de substituir, a moda nova. A pesquisa também associou alta participação no mercado de segunda mão a maior volume total de compras e menor tempo de permanência das peças. Como o levantamento é transversal, ele identifica relações, mas não prova que comprar usado cause consumo excessivo.
Essa ressalva impede duas conclusões fáceis. A revenda não é ambientalmente irrelevante, pois pode prolongar a vida de um produto. Também não é sustentável por definição. Preço baixo, catálogo renovado e a sensação de fazer uma escolha melhor podem estimular compras adicionais, fenômeno descrito pelos pesquisadores como possível efeito rebote.
O teste real é o tempo de uso
A Agência Europeia do Ambiente considera a reutilização parte necessária de um sistema têxtil mais circular, ao lado do reparo e do uso prolongado. Ao mesmo tempo, alerta que o crescimento do consumo tem superado os ganhos de eficiência. Na União Europeia, são gerados cerca de 16 quilos de resíduos têxteis por pessoa ao ano. O bloco exportou 1,4 milhão de toneladas de têxteis usados em 2025.
O mercado deve continuar avançando. O relatório The State of Fashion 2026 projeta crescimento de duas a três vezes mais rápido para a segunda mão do que para produtos novos até 2027. A previsão usa dados de empresas do setor e deve ser lida como expectativa de mercado, não como resultado garantido.
O crescimento econômico já coloca a roupa usada dentro do varejo principal. O efeito ambiental será definido por outra medida: quantas peças permanecem em circulação por mais tempo e quantas compras novas deixam de acontecer. Se a revenda apenas acelerar a entrada e a saída de roupas do armário, muda o canal sem mudar a lógica. Quando substitui produção adicional e amplia o uso real, transforma a segunda vida da peça em redução concreta de demanda.


