Escritora Christiane Monnerat em imersão literária na Calábria

Na rota da inspiração: a Calábria de Christiane Monnerat

Entre falésias que se debruçam sobre o mar Tirreno e o aroma das laranjeiras que perfumam o ar de Tropea, a escritora e procuradora de justiça Christiane Monnerat encontrou mais do que um destino de férias — encontrou o cenário perfeito para o desfecho de sua primeira obra, Crime e Latido. Em uma viagem solo pela Calábria, a autora mergulhou em paisagens que alternam silêncio e esplendor, simplicidade e refinamento, descobrindo que o verdadeiro luxo é poder escolher entre o recolhimento criativo e o prazer dos sentidos. Nesta edição, a Revista Rica convida o leitor a embarcar com ela por entre masserias, perfumes mediterrâneos e memórias que se transformaram em literatura.
Confiram o « Roteiro de Rica « desta edição pela escrita da celebrada autora!

Antes de iniciarmos nossa jornada pelo Bel Paese, é preciso enfatizar a total ausência de patrocínio a não ser aquele acumulado por mim mesma durante mais de trinta anos de serviço público. Nenhum hotel, restaurante ou vinícola ofereceu cortesias, descontos ou convites. Tudo o que relato aqui é fruto de experiência pessoal, autêntica e despretensiosa, vivida por cerca de um mês na Calábria que ocupa o bico da bota, estando, portanto, localizada no sul da Itália.

Um dos diferenciais de viajar pela Itália, qualquer que seja a região, é ser falante da língua italiana. Longe de ser por herança genética, porque minha ascendência é portuguesa. É por amor mesmo. A segurança de compreender cada palavra, de pedir um café sem hesitar, de entender uma piada dita no dialeto local e tentar conectar o compasso da linguagem verbal com a expressão vívida das mãos, traz uma sensação reconfortante e quase íntima, como se o país inteiro se tornasse casa.

Recomendo fortemente a Piccola Università Italiana que oferece cursos online durante todo o ano e mantém duas sedes: uma em Trieste, que ainda não conheço, e outra em Tropea, onde tive o privilégio de estudar por quase um mês e conviver com professores que transformam a língua em ponte cultural. Falar italiano não é apenas entender o que se diz, mas acessar o coração da Itália, interagir com naturalidade e sentir-se parte de uma cena que, de outro modo, seria apenas observada à distância. Essa seria a minha dica principal e traduz o diferencial das minhas viagens sozinha pela Itália. Não é sobre turismo, mas pertencimento.

O ponto central foi Tropea, cidade suspensa sobre falésias, onde o mar Tirreno parece refletir o céu. Tropea possui lugares escondidos e misteriosos, a poucos passos do centro histórico e possui o dom de desacelerar o corpo e acender o pensamento. É o tipo de cidade em que um escritor se reconcilia com o silêncio.

O lugar que recomendo de alma aberta é uma espécie de masseria contemporânea chamada Hibiscus One, onde me hospedei por quase três semanas. É um refúgio discreto, rancho acolhedor, envolto por jardins mediterrâneos e perfume das laranjeiras e bergamotos. Servia jantar apenas de quinta a domingo e era justamente essa simplicidade que o tornava especial. Fiquei encantada com os ingredientes de “chilometro zero”, como dizem os italianos, colhidos diretamente da horta para a mesa. Os pratos, preparados pela vovó da família, traziam o sabor autêntico das receitas transmitidas por gerações, temperadas com história, afeto e o perfume das ervas frescas colhidas ao entardecer. A limonada matinal era colhida em um pé de limão que, despretensiosamente, exalava um inigualável perfume da minha varanda privativa. Foi ali, entre o canto dos pássaros e o silêncio cortado apenas pelo som distante do sino da catedral, que escrevi as páginas finais do meu primeiro livro Crime e Latido.

Em maio, o clima calabrês é indeciso, ora quente, ora com um vento que exige casacos, mas nada de luvas ou acessórios de neve. Na verdade, vestimo-nos como cebolas ambulantes, em camadas: primeiro o casaco, depois a blusa, o lenço ou cachecol e logo tiramos tudo, apenas para recolocar meia hora depois, quando o sol se esconde atrás de uma nuvem teimosa. Chove com a mesma intensidade com que o sol ressurge e nos brinda com um horizonte de tons alaranjados e pinceladas de rosa. A maioria dos hotéis deixa um guarda-chuva que mais parece uma barraca de praia à disposição dos hóspedes. É um clima que nos ensina a rir do próprio desconforto e a entender que o sul da Itália, tal como a vida, não se explica, mas apenas se aceita, com poesia e um leve descompasso térmico.

E por falar em cebola, não há como deixar de provar o sorvete de cebola roxa vendido em frente ao Bar do Tonino, no centro histórico, onde a multiplicidade de sabores se mistura ao aroma do café recém-coado e ao burburinho dos habitués. Não é uma pausa, mas um movimento único de suspensão do tempo. Verdadeiro contraste entre o exótico e o familiar, o caos e a delicadeza, apresentando a essência da alma calabresa: Autêntica, terrosa e irresistivelmente humana.

A última semana em Tropea foi dividida entre dois endereços de espírito oposto: o Sui Generis, hotel intimista, com poucos quartos e uma piscina com vista para as montanhas e o mar, o tipo de lugar que convida ao mergulho silencioso nas próprias ideias e o Villa Paola, este sim sinônimo de refinamento, onde cada flor parece estrategicamente posicionada e até o ar tem cheiro de riqueza. Seu restaurante, embora não possua estrelas Michelin, oferece uma experiência gastronômica memorável. Entre um e outro, descobri que o verdadeiro luxo talvez seja poder escolher entre o silêncio e o esplendor e se sentir igualmente em casa nos dois.

Tropea é daquelas cidades que convidam a comer devagar, com vista para o mar e o som das ondas como trilha sonora. Dois locais que merecem destaque, especialmente para quem gosta de unir gastronomia e mar, são o Sunset Beach Club (Contrada Marina di Tropea) e o Lido Isola Bella (Spiaggia Marina dell’Isola). À beira da areia, o Sunset Beach Club é o lugar ideal para longos almoços com taças de vinho branco e pratos de frutos do mar fresquíssimos. O serviço é simpático e o clima descontraído, perfeito para quem quer sentir o espírito calabrês sem pressa. A entrada polpette di baccalá ao molho chutney é de comer de joelhos. Em dias mais quentes, as espreguiçadeiras e o bar de praia fazem do local um refúgio completo. Por outro lado, o Lido Isola Bella, localizado aos pés do famoso santuário de Santa Maria dell’Isola (visita obrigatória), oferece uma das vistas mais emblemáticas de Tropea. Além do restaurante com bom cardápio de peixes e massas, há estrutura de praia, guarda-sóis e atendimento de qualidade, ainda que, em maio, o mar costume estar gelado e o tempo um pouco instável para mergulhos prolongados. Minha dica: maio é um ótimo mês para visitar Tropea sem as multidões do verão, mas o clima ainda pode oscilar. Mesmo assim, vale a pena reservar uma mesa em um dos lidos (equivalentes aos beach clubs) para assistir ao pôr do sol, que nessa época do ano costuma ser um espetáculo à parte.

Além dos restaurantes de praia acima nominados, o centro histórico de Tropea oferece opções para todos os gostos e bolsos, dentre os quais destaco:

 La Conchiglia da Patea (Via del Monte 17, Largo Sannio): clássico e elegante, o La Conchiglia é endereço certo para quem busca boa cozinha calabresa com um toque refinado. O atendimento é atencioso e o ambiente em uma praça acolhedora torna cada jantar uma experiência memorável.

Tomate (Via Vittorio Veneto, 1) é mais moderno e descontraído, combinando pratos criativos, ingredientes frescos e um serviço jovial. Ideal para quem quer uma refeição saborosa sem tanta formalidade, mas com a mesma qualidade.

Logo em frente, encontra-se o Bar Veneto, leve, descontraído e aprazível para um aperitivo. Peça uma bebida alcoólica ou um simples refrigerante e voilà: chega à mesa uma generosa e variada iguaria complementar de petiscos (snack plate) para acompanhar. Destaque para os drinks bem feitos.

Quei Bravi Ragazzi (Via IV Novembre VI) é para um clima mais simples e autêntico, este pequeno restaurante conquista pela simpatia e pelos preços honestos. É o tipo de lugar onde o sabor fala mais alto que o rótulo, perfeito para uma pausa rápida entre as andanças pelas ruelas do centro histórico.

No coração do centro histórico de Tropea, na Via Largo San Michele, fica o Le Mura, um daqueles lugares que se revelam aos poucos, como se escondessem um segredo. O pátio externo é um espetáculo à parte: cercado por antigas muralhas de pedra e para o pôr do sol que parece incendiar o horizonte. É o tipo de cenário que faz qualquer taça de vinho parecer mais aromática e qualquer conversa ganhar um ritmo mais lento. Muitos turistas costumam criticar a comida, talvez esperando algo mais internacional. Eu, ao contrário, achei os pratos muito saborosos nas duas vezes em que lá estive, simples, saborosos e fiéis ao espírito calabrês. Talvez o segredo esteja exatamente nisso: no tempero despretensioso, no azeite generoso e na autenticidade que não se curva às exigências dos cardápios “instagramáveis”. Ali, até o vento parece temperado com orégano e nostalgia.

Quem visita Tropea inevitavelmente passa diante da loja principal da Acqua degli Dei (Corso Vittorio Emanuele II 40), marca símbolo da Calábria. É impossível não ser atraído pelos frascos elegantes e pelas fragrâncias que evocam o mar Tirreno, o vento quente e o perfume cítrico típico do sul da Itália. Os perfumes são maravilhosos (e caros), verdadeiras obras-primas olfativas que transformam o simples ato de caminhar pelas ruelas em uma experiência sensorial.  Saí da loja perfumada e levemente falida, mas feliz. Mas para quem prefere uma alternativa mais acessível, sem abrir mão da sofisticação, a L’Erbolario oferece a linha Fiordaliso (Essenza Cornflower). Com notas florais suaves e um fundo ambarado e delicado, é uma opção mais econômica e igualmente encantadora, ideal para levar na mala sem culpa e continuar sentindo o aroma da Itália mesmo depois de voltar para casa. Outra opção local com excelente fixador é o perfume artesanal Blue Tropea (Largo San Michele 19/20).

O viajante distraído aprende rápido: a partir das 13h, a Calábria se recolhe. O comércio silencia, as persianas descem e até o garçom desaparece para a siesta. Por volta das 14h, o almoço se encerra como se fosse uma missa, pontual e irrevogável. É uma experiência curiosa, comparável apenas àquela de encontrar o cemitério fechado no Dia de Finados.

E já que o assunto veio à tona, confesso: sempre visito os cemitérios italianos. O de Tropea é um dos mais serenos que já vi. Aos sábados, contudo, a contemplação divide espaço com a vida eis que ao lado do portão principal, surge uma feirinha animada que vende de tudo, sapatos, roupas íntimas, bolsas e curiosidades locais. Um contraste deliciosamente italiano onde até o descanso eterno convive com a barganha terrena.

E o melhor de Tropea: não é preciso alugar carro. A rede ferroviária calabresa funciona surpreendentemente bem, ligando Tropea a cidades costeiras e vilarejos históricos, dentre os quais alguns destaco a seguir:

Scilla, pequena pérola encravada entre mar e castelo, onde findei por enterrar a máxima protocolar segundo a qual casamento, funeral e batizado, você só se arruma se foi convidado. Explico-lhes: Acabei, sem saber como, participando de um batizado de uma família que eu sequer conhecia. Italianos não perguntam muito, fornecem explicação com a linguagem sincera das mãos e apenas nos acolhem. Saí de lá com lembrancinhas do batizado, fotos com os padrinhos e uma sensação de pertencimento instantâneo. Aliás, aqui vai uma dica: Recomendo fortemente para os amantes de camarão o risoto com gamberi e pistacchio do restaurante De Angelis na Via Cristoforo Colombo, 29 em Scilla.

Outro lugar que me fascinou foi Pentedattilo, a chamada città fantasma, uma aldeia esculpida na rocha, abandonada e ao mesmo tempo viva, com artistas, gatos e histórias suspensas no ar. Caminhar por suas ruínas é como visitar o inconsciente da Calábria, uma mistura de silêncio, vento e beleza rude.

Na verdade, minha odisseia italiana começou por Reggio di Calabria e dali contratei um guia até Pentedattilo. Existe trem que faz a ligação entre ambas, mas não há qualquer meio de transporte, nem mesmo táxi para se subir o penhasco, epicentro do vilarejo inabitado, de onde se avista a imensidão do mar.

Por outro lado, Reggio di Calabria, de frente para a Sicília, guarda uma elegância discreta, com seu lungomare banhado por um vento morno e a vista do Vulcão Etna ao longe, lembrando-nos de que a natureza dita o ritmo da vida. O ponto alto é o Museo Archeologico Nazionale, onde estão abrigados os famosos Bronzi di Riace e confesso: fiquei abismada com o tamanho excomunhal das estátuas que foram encontradas por acaso no fundo do mar. Entre os dias 24 e 27 de abril, ocorre um festival de street food com stands de comida com especialidades regionais e até um festival de música com atrações internacionais. Foi nesse mercado ao longo da orla que o meu jejum intermitente terminou bruscamente de modo nada espiritual: O pastel frito recheado com queijo derretendo e pedacinhos de ‘nduja, um enchido picante encapsulado com carne suína e pimenta vermelha. Na minha infância, conheci essa iguaria com o nome de panzerotto. A primeira mordida foi suficiente para quebrar qualquer promessa de contenção calórica realizada antes da viagem. Aqui vai outra dica imperdível de restaurante: L’A Gourmet Accademia (via Largo Cristoforo Colombo, 9), onde o Especial Baccalá me mostrou que não somente em Portugal se come um bacalhau de nível quase sagrado.

E se há um lugar que não pode faltar, é Capo Vaticano (Ricardi), cerca de dez minutos de Tropea, onde o mar assume tons que vão do esmeralda ao turquesa e as praias parecem pintadas à mão, como a spiaggia di Grotticelle. O mirante oferece uma das vistas mais icônicas da Itália. Há pequenos cafés e lojinhas com produtos locais.

Ainda nos arredores de Tropea, encontra-se a esplendorosa Pizzo. Fui de trem, o que recomendo a todos. Estacionar o carro é uma via-crucis e como em boa parte da Calábria, o relevo íngreme transforma qualquer vaga em façanha. Acredito que a Calábria inteira foi projetada por um urbanista com tendências ao sadismo topográfico. E aí vai outra dica valiosa: Nem pense em ocupar sua mala com aquele sapato de salto fino. Ele jamais conhecerá a Itália. Da estação, basta embarcar naqueles trenzinhos turísticos coloridos que percorrem o centro histórico e descem até o mar. O passeio é descontraído, simpático e tem paradas estratégicas para fotos, lojas e, claro, para provar o famoso tartufo di Pizzo, o sorvete em forma de esfera, com recheio de chocolate derretido, criado ali mesmo. Todavia, uma das surpresas mais fascinantes da Calábria é a Chiesa di Piedigrotta, uma pequena igreja escavada na rocha vulcânica à beira do mar Tirreno. Esculpida por marinheiros no século XVII, é um santuário subterrâneo feito à mão, onde cada parede, coluna e estátua foi talhada diretamente na pedra. A luz entra pelas aberturas da gruta, refletindo o brilho da água e dando à cena um ar quase místico. Dica valiosa: O pequeno templo carrega um segredo que somente se revela nos meses de junho e julho quando o sol do fim da tarde se alinha com a entrada da gruta e inunda seu interior com uma luz dourada e mágica, criando aquele efeito quase divino, verdadeira experiência extrassensorial. O melhor horário para vivenciá-la é no fim da tarde, entre 17 e 18 horas, quando o sol começa a se inclinar sobre o horizonte.

Nicotera é um pequeno vilarejo que dista cerca de 40 km de Tropea. Quando lá cheguei, após 50 minutos de trem, não fazia ideia de para onde ir. O centro histórico ficava no alto de uma colina. Bastava olhar para cima e entender que aquele trajeto exigia mais do que vontade: exigia preparo espiritual. E olha que expertise em subida eu tenho, desde a peregrinação que fiz ao Monte Sinai com minha comadre, a atriz e roteirista Mônica Carvalho. Se sobrevivi ao deserto egípcio, uma colina calabresa não deveria me intimidar. Deveria. Por sorte, arranjei uma carona com três senhores incrédulos e incríveis, que me olhavam como se eu fosse uma aparição. “Sozinha? Aqui?”, repetiam, entre risos e espanto, enquanto o carro subia em curvas tão fechadas que pareciam desenhadas por um escultor em estado de embriaguez. Lá do alto, o vilarejo parecia suspenso entre o mar Tirreno e o céu. O vento que soprava das oliveiras dava a impressão de que o tempo ali se move devagar, com a calma de quem não tem pressa de chegar a lugar nenhum, com exceção de mim mesma ao imaginar a saga do trajeto de volta para não perder o último trem, como se o tempo também decidisse partir sem avisar. Como um ex-ateu penitente, subi na fé e desci no desespero. A paisagem era deslumbrante, casas de pedra e varandas floridas, mas cada passo exigia um preparo físico incomum. Quando enfim alcancei o sopé da colina, senti que tinha vivido uma espécie de mini-epopeia calabresa: curta, intensa e com final feliz, ainda que com as pernas tremendo. Minha dica: Alugue um veículo, contrate um profissional ou uma excursão ao local, a não ser que você pretenda mudar seu domicílio fiscal para esse local paradisíaco e de difícil acesso nos arredores da Calábria.

Muita gente me pergunta por que, tendo passado um mês na Calábria, não percorri mais cidades, ilhas e povoados. A resposta é simples: meu propósito ali não era apenas viajar, mas terminar o livro que vinha me acompanhando há anos. A Itália foi o meu refúgio criativo, o cenário escolhido para dar forma às últimas linhas de uma história que misturava lembranças, causas e personagens que insistiam em não me deixar em paz. Enquanto outros percorriam praias e vinhedos, eu percorria parágrafos, afinal, escrever é uma forma de peregrinar, só que nos recônditos da alma, afinal a melhor viagem não é geográfica, mas literária.

Christiane Monnerat